Viver a Fotografia e da Fotografia

Rafael Petrocco sobre Casamentos, Educação e o Negócio das Imagens

Um casal está em pé, bem próximo um do outro, abraçando-se suavemente com as testas encostadas, cercado por uma paisagem verde e arborizada.

Breve Biografia

Rafael Petrocco é um fotógrafo, designer e educador brasileiro, mais conhecido como co-criador e apresentador do Papo de Fotógrafo, um dos podcasts de fotografia mais influentes do Brasil. Lançado em 2013 junto com a fotógrafa Ana Cariane, o programa já produziu centenas de episódios e alcançou milhões de ouvintes, tornando-se um espaço importante para conversas sobre fotografia, criatividade e o lado profissional da produção de imagens.

Antes de se dedicar totalmente à fotografia, Petrocco estudou publicidade e design gráfico, e essa formação em comunicação ainda influencia a forma como ele pensa imagens e narrativa visual hoje. Além de conduzir o podcast e ensinar outros fotógrafos, ele também trabalha como fotógrafo de casamentos e família em Campinas, no Brasil, registrando momentos pessoais enquanto constrói uma comunidade forte em torno da fotografia e da educação.

Movido por um profundo interesse pelas pessoas e por suas histórias, Petrocco vê a fotografia não apenas como uma profissão, mas como uma forma de se conectar com os outros e documentar momentos significativos em suas vidas.
https://www.rafapetrocco.com.br/

Um grande grupo de pessoas se reúne ao ar livre, sobre um gramado perto de um lago, organizado em círculo para o que parece ser uma cerimônia de casamento, cercado por árvores e vegetação.

O Brasil tem uma cultura visual muito forte — música, cor, celebração, emoção. Você sente que a cultura brasileira influencia a maneira como você fotografa casamentos?

O Brasil é um país de proporções continentais. Se você andar pelas cidades, vai perceber que, além das músicas, cores e emoções, temos uma mistura muito grande de culturas do mundo inteiro. Fomos colonizados pelos portugueses, mas também recebemos diferentes ondas de imigração — italianos, espanhóis, holandeses, alemães, japoneses, chineses — que, de alguma forma, já se mesclaram à cultura local.

Acho que é justamente essa mistura, essa diversidade, e um pouco da minha própria ascendência italiana que influenciam a minha forma de fotografar. Meu trabalho não é tão baseado na técnica ou na estética fotográfica, mas principalmente na conexão e na forma de me relacionar com as pessoas através da fotografia.

O que é fundamentalmente diferente ao fotografar casamentos no Brasil em comparação com outros lugares do mundo?

Ainda não tive a oportunidade de fotografar casamentos em outros países, mas já fotografei casais estrangeiros que vieram se casar no Brasil. Em geral, os casamentos brasileiros não são apenas uma celebração na vida de duas pessoas. Eles são oportunidades únicas de reunir familiares e amigos, e acabam se tornando um grande acontecimento — quase como um show de uma turnê de uma banda famosa.

No exterior, é comum ver casamentos registrados por apenas um fotógrafo e em um ritmo mais tranquilo. No Brasil, costuma ser o oposto. Aqui, as equipes têm dois, três ou até mais profissionais, porque os casamentos são, na maioria das vezes, grandes eventos, com 200, 300 ou até mais convidados.

Outro detalhe interessante é que, no Brasil, a festa é o auge do casamento. Em muitos países, a festa é apenas um complemento da cerimônia. Aqui, ela é o momento mais esperado e mais vivido pelos convidados. Não é à toa que, para nós, seis horas de festa muitas vezes parecem pouco tempo para comemorar.

Quando você chega a um casamento, o que você procura primeiro – a luz, as pessoas, a emoção ou outra coisa?

Nunca fui — e talvez nunca seja — um fotógrafo que se considera artista. Entendo um pouco de luz, consigo perceber composição, mas sempre fui uma pessoa muito intuitiva. Não penso tanto; simplesmente faço.

Por causa disso, o que acaba prevalecendo para mim é a relação com as pessoas e seus sentimentos. Ou seja, o que realmente importa é o momento, a expressão, muito mais do que a luz perfeita ou uma composição elaborada.

Acredito que seja justamente essa característica que faz algumas pessoas se conectarem com o meu trabalho. Elas enxergam naturalidade e espontaneidade nas imagens, em vez de construções visuais muito complexas que talvez nem tenham sido percebidas ou vividas por quem estava ali

Ensinar e compartilhar conhecimento parece ser uma parte importante do seu trabalho. Como educar outros fotógrafos mudou a forma como você pensa sobre fotografia?

Desde que me conheço por gente — uma expressão brasileira para dizer que sempre tive facilidade com algo — gosto de compartilhar aquilo que aprendo com outras pessoas.

Quanto mais me conecto com outros profissionais, mais consigo absorver ideias e aplicá-las, mesmo que de forma inconsciente, na minha própria fotografia. E quando compartilhamos algo que gera dúvidas ou discussões, as possibilidades de desenvolvimento aumentam ainda mais.Depois de 16 anos fotografando e 13 anos produzindo o podcast, aprendi a enxergar a fotografia como um todo. Seja como paixão, como muitos gostam de dizer, ou como negócio. No fim, acredito que o equilíbrio entre essas duas dimensões é o melhor caminho para conseguir viver a fotografia e da fotografia.

Seu background é em publicidade e design. Essas habilidades fazem de você um fotógrafo melhor — e talvez até um professor melhor?

Não diria necessariamente melhor, porque a fotografia não é apenas uma questão de estética.

Ter formação em publicidade e design ajuda muito quando falamos de comunicação e apresentação do trabalho. Mas existem outros fatores — muitas vezes mais importantes do que a formação acadêmica — que moldam um fotógrafo.

No meu caso, acredito que essas diferenças vêm muito mais da educação que tive em casa, das experiências que vivi, dos conselhos que recebi e dos profissionais que tive a oportunidade de acompanhar ao longo da carreira. Também aprendi muito com fotógrafos que conheci e com quem tive o privilégio de trocar ideias.

Olhando para a sua trajetória até agora — o que a fotografia mudou na sua vida?

Gosto de dizer que, para mim, a fotografia é apenas uma ferramenta para fazer aquilo que mais gosto — e que dizem que faço bem — que é me comunicar.

Talvez eu só tenha uma resposta mais clara daqui a alguns anos. Ou talvez nunca tenha uma resposta definitiva. Mas posso dizer que a fotografia muda a minha vida toda vez que se torna o instrumento para viver algo novo — algo que talvez eu nunca teria a oportunidade de experimentar se não fosse através dela.

Hoje muitos fotógrafos têm dificuldade em equilibrar criatividade com o lado de negócios da fotografia. Que conselho você daria para alguém que está tentando construir uma carreira sustentável nessa área?

Existe uma frase que sempre uso na abertura das minhas palestras:
“Se você não estiver bem, a motivação e a criatividade não vêm.”

Uso essa frase justamente para mostrar que uma coisa — a paixão pela fotografia — não existe sem a outra — o negócio.

Sempre que posso aconselhar alguém, tento mostrar os bastidores da profissão. Aquilo que existe por trás do que as redes sociais mostram e insistem em vender como sucesso. Costumo brincar que sou quase um “desinfluencer”, porque não gosto de romantizar a profissão de fotógrafo.

Um conselho que sempre dou é: o tempo para alcançar o sucesso é proporcional ao tempo que você dedica a estudar e a colocar em prática aquilo que aprende. E não é só o que você aprende em cursos ou congressos — é também aquilo que aprende na prática, atendendo clientes e fotografando.

Se alguém realmente quer ser um profissional reconhecido, precisa entender que não dá para escolher apenas as batalhas que gosta de lutar. Muitas vezes será necessário enfrentar trabalhos que não são exatamente os seus sonhos. Mas, com o tempo, esse esforço pode abrir caminho para projetos que realmente fazem sentido.

Hoje os fotógrafos produzem mais imagens do que nunca. Quão importante é o fluxo de trabalho e a gestão de arquivos no seu dia a dia — e onde o JPEGmini entra nesse processo?

Imagem por imagem, sempre podemos refazê-las se for necessário. Mas fotógrafos que trabalham com eventos sociais não produzem apenas imagens — eles documentam memórias, contam histórias e guardam registros para futuras gerações.

Por isso, de certa forma, precisamos ser quase bibliotecários. O backup tem um papel fundamental para garantir que essas recordações não se percam. O fotógrafo precisa ter um fluxo de trabalho que assegure a preservação desses “documentos”.

Nossa biblioteca cresce cada vez mais. Já não estamos lidando com 12, 24 ou 36 poses, nem com álbuns de 100 imagens. Hoje falamos de gigabytes e terabytes de pixels que precisam ser armazenados — e isso impacta diretamente os custos do negócio.Ter uma ferramenta como o JPEGmini, que reduz o tamanho dos arquivos sem comprometer algo essencial no nosso trabalho — a qualidade da imagem — é fundamental. Ela ajuda o fotógrafo a equilibrar os custos de armazenamento e permite investir os recursos economizados em outras áreas: seja no desenvolvimento da fotografia, no crescimento do negócio ou até em qualidade de vida

Depois de conhecer e entrevistar tantos fotógrafos, qual é a coisa que faz você perceber que alguém é realmente um grande fotógrafo?

Acredito que existam dois tipos de grandes fotógrafos. Aqueles em que a fotografia se torna icônica, onde a arte se sobressai ao artista. E aqueles em que a fotografia é uma representação muito fiel da pessoa que está por trás da câmera.

Nem sempre o segundo tipo recebe o mesmo reconhecimento do primeiro. Mas isso não o torna menos relevante — pelo menos na minha opinião.

Para mim, um grande fotógrafo não consegue se separar da sua fotografia. Eu só considero alguém realmente grande quando também é uma boa pessoa, com princípios e valores que combinam com as imagens que produz.

Se alguém cria fotografias incríveis, mas quando abaixa a câmera é uma pessoa que eu não gostaria de ter ao meu lado, a magia da fotografia simplesmente desaparece.

Eu gosto de perguntar aos fotógrafos não apenas sobre seus sucessos, mas também sobre seus fracassos — porque muitas vezes aprendemos mais quando as coisas dão errado. Você tem alguma história de um ensaio ou trabalho em que tudo saiu completamente do controle — algo caótico, engraçado ou inesperado — que acabou te ensinando algo importante?

Costumo dizer que não existe trabalho perfeito. Até porque, quando tudo é perfeito, não existem histórias para contar.

Pense nas conversas sobre uma viagem. Qual parte contamos com mais entusiasmo? Aquela em que tudo deu certo ou aquela em que algo inesperado aconteceu?

Eu poderia escrever um livro inteiro com histórias de casamentos que fotografei. Desde um casal que já estava separado, mas decidiu manter o casamento porque a mãe da noiva não queria cancelar a festa, até uma noiva que passou mal, foi levada ao hospital, se recusou a tirar o vestido e voltou para a festa animada — comemorando até o sol nascer.

O que aprendi com todas essas histórias é que, independentemente do que aconteça, precisamos ser profissionais. Cumprir o que foi combinado, fazer o nosso melhor e, se possível, manter sempre o bom humor.

Reflexão Final

 O que ficou comigo dessa conversa não foi técnica — foi perspectiva.

Rafael não fala sobre fotografia como arte, nem mesmo como carreira.
Ele fala sobre ela como algo que existe entre pessoas, momentos e o tempo.
Algo que precisa ser tratado com cuidado.

Mas mais do que isso, ele falou sobre caráter.
Sobre não separar o fotógrafo da pessoa por trás da câmera.

A maioria fala sobre luz, visão e timing.
Ele falou sobre responsabilidade.

E essa mudança — de como você fotografa para quem você é — parece ser o verdadeiro ponto.

  • Read this article in English